Pantera Cor de Rosa

Este é o blog de Juliana Carpes Imperial, mais conhecida pelos desconhecidos como a Pantera Cor de Rosa por volta e meia ir correr toda de rosa.

sábado, julho 28, 2007

Você Vai para o Pan?

Essa é uma pergunta que eu escuto o tempo todo. Por que eu não vou ao Pan?
  1. Estou me recuperando de uma baita tendinite no joelho direito, e
  2. Não corro bem o suficiente para participar do Pan.

Quando digo que não e explico o porquê, as pessoas ficam dizendo que um dia chego lá. Não, a verdade é que nunca vou chegar lá. Além de muito treinamento, é preciso talento, o que não tenho.

As pessoas não têm a menor noção do que é esporte e ser atleta. Isso chega ao ponto de pessoas que não me vêem treinando acharem que eu sou ginasta. Uma vez, quando teve uma competição de ginástica artística no Rio Centro, me perguntaram por que não estava lá. Para elas, só existem os esportes que estão em evidência. Também tenho uma amiga velocista que volta e meia lhe perguntam se ela não vai correr a São Silvestre. Quanto a mim, sempre me perguntam se eu não vou correr a maratona ou a meia-maratona, sendo que eu só corro provas de até 10 Km. Posso correr até 15 Km, mas não me sinto muito confortável.

Algumas pessoas também se espantam por eu não ganhar corridas. Dizem que se eu tiver força de vontade vou conseguir acompanhar as campeãs. Quando comecei a treinar achava isso. Porém, isso é longe de ser verdade. Tenho duas amigas que já se deram muito mal achando isso. Uma saiu feito uma desesperada na sua primeira corrida e teve um coma glicêmico de dois dias. A outra acompanhou a quinta colocada durante os três primeiros quilômetros da São Sebastião, uma corrida onde vão grandes atletas. Desmaiou e chegou até a delirar. Eu não poderia fazer o mesmo porque não sou veloz como ela. Mas se tentasse teria o mesmo destino. Resumindo: força de vontade ajuda, e muito, mas não é o suficiente para se ganhar uma corrida.

Talvez as pessoas vejam que eu corro muito melhor do que a maioria das pessoas e só por isso acham que eu vá ganhar corridas. Só que as outras pessoas não estão treinando, estão só trotando para se manter em forma. Outras pessoas em outros locais treinam forte também. Se muita gente ganha de mim em corridas e não vai para o Pan, imagina eu.

Além de força de vontade, disciplina, boa cabeça e muito treino, é necessário se ter algo mais para chegar ao topo: talento. Isso é algo que se nota desde criança e que eu nunca tive para esporte algum. Acredito que qualquer um que treinasse seriamente e tivesse muita força de vontade seria capaz de ganhar de mim.

Quando criança eu sempre fui muito fracote. Demorei a começar a andar e vivia cansada. Quando eu era criança vivia reclamando de cansaço. Ao fazerem exame de sangue em mim e constatarem que não era anemia, começaram a dizer que era preguiça e, como vivi minha infância sob regime de tirania, me proibiram de dizer isso. Também tinha dificuldades com escadas e para correr. As outras crianças viviam me empurrando e me chamando de molenga. Eu por ser fracote, sempre caía. Nas corridas era sempre a última, mesmo fazendo muita força. Era ruim em qualquer esporte. Nos coletivos, nunca tinha força para jogar uma bola direito e meu saque nunca passava da rede.

A situação só era melhor nos testes de cooper durante o ginásio. Embora não fosse veloz, conseguia ter bom desempenho por ser muito determinada, o que surpreendia os professores e me levava a ganhar de muitos meninos.

No ballet também tinha problemas. Minha panturrilha era uma gelatina, enquanto outras que não se esforçavam nada tinham músculo na panturrilha. Meus outros músculos também eram flácidos. A própria diretora do estúdio dizia que um tarado iria adorar me apertar. Por causa dessa flacidez toda, minha sustentação de perna era zero, não importando a força que eu fazia. Tinha problemas também na hora de fazer abdominais, flexões e em alguns movimentos de dança, como nos saltos. Mas na hora de correr, eu até que corria bonito.

Como meu pai foi corredor, sempre sonhava em ser corredora também, mas achava que não era para mim. Quando ganhei uma esteira, comecei a ficar um pouco mais forte e melhorei o meu desempenho no ballet. Até que um dia a esteira quebrou e eu resolvi correr na rua. Embora não soubesse como treinar, me dedicava muito, a ponto de dizerem que eu tinha talento. Acabei sendo convidada para fazer um teste e passei a treinar no Célio de Barros junto com grandes atletas.

Ali sofri muito deboche por parte de outros treinadores e atletas por causa do meu corpo sem músculos e um tanto rechonchudo. Por mais que eu treine, faça musculação e tome suplementos, tenho tendência a ganhar só massa gorda. É muito difícil para mim ganhar massa magra e perder massa gorda, o que é ruim para um atleta. E olha que eu como tudo light e integral, quase não como doce e gordura, me alimento super bem e conto calorias rigorosamente. Se comer demais em uma festa, compenso até a última caloria e compenso as porcarias que comi ficando meses sem comer nada que não preste. Já as minhas amigas atletas não comem nada light, comem um monte de pães franceses e são fortes ou bem magras. Algumas até engordam se tiram férias ou se machucam. Porém, assim que voltam a treinar, emagrecem tudo sem dieta. Eu estou parada há 3 meses e, embora não esteja sedentária, tenho passado fome, o que não me impediu de engordar uns 3 Kg. Ao contrário delas, minha digestão é muito lenta. Enquanto elas podem comer biscoitos e bananas logo antes da competição, eu preciso esperar 2 h, senão passo mal.

Hoje em dia, minha musculatura é forte, mas é a custa de muito sacrifício. Mesmo me cuidando muito, perco tônus muscular e massa magra muito facilmente, até por causa de problemas hormonais.

Os problemas com cansaço persistem até hoje. Volta e meia eu fico mole e não consigo fazer nada direito mesmo descansando bem. Nesses casos, nem a pulsação sobe e a minha pressão fica baixa. Também tenho grandes dificuldades para dormir.

Por causa da musculatura, até hoje sou muito lenta. Perco fácil na velocidade para gente que perde feio para mim nas corridas. Isso é um motivo para os velocistas debocharem de mim. Se eu fosse metida, debocharia da falta de inteligência de todos eles. Tirando o meu treinador, ninguém que treina lá tem inteligência comparável à minha.

Também perco a forma muito facilmente. Já a maioria dos atletas se recuperam muito mais rápido do que eu. Além disso, muitos possuem condições precárias de treinamento, precisando trabalhar duro, passando fome e não tendo material e apoio adequados. Contudo, como têm talento, chegam ao topo.

Algumas pessoas me perguntam como posso perder para outras que treinam muito menos do que eu. A resposta óbvia: elas têm mais talento do que eu para o atletismo.

Concluindo: não tenho talento para ser uma grande campeã. Atleta, sim. Talvez até uma boa atleta. Quem sabe um dia... Agora, grande campeã em corridas, só se for na próxima vida.

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